Roteirista e Escritora

A avenida da cidade

Posted by on Jan 31, 2012 in Crônicas, Slideshow | 0 comentários

A avenida da cidade

Há noites em que as árvores se curvam para cobrir a rua deixando tudo mais escuro, em estilo hitchcockiano. Nesse tom, caminhávamos em direção ao vento, remoendo certos pensamentos. Há noites em que evitamos olhar para as estrelas, porque a cidade nos obriga a manter os pés fincados no chão.

No caminho, passando por uma banca de revistas, uma senhora simpática escolhia seus livros de palavras cruzadas. Era possível perceber seu perfume de café de fim de tarde de cidade pequena. Era simples sentir esse aroma na cidade que nunca dorme. Verdade é que, quando a gente alinha olfato e sensibilidade, certas sutilezas afloram sem muito esforço.

Andando mais um pouco, os pés estacionaram diante da grande avenida da cidade. Ali, algo de majestoso se revela a todo o tempo, mesmo numa noite de poucas estrelas e muito chão. Os prédios infinitos dão a impressão de que o fim da linha não existe, o que assusta qualquer coração singelo, sob a luz das torres gigantes.

Ruelas, ruazinhas, travessas e alamedas – todas gostariam de ser uma larga avenida, se pudessem falar. E ali, paralisada, buscando abrigo na grande avenida para afagar a sensação de asfixia urbana, era possível rir do concreto ao constatar que chato mesmo deve ser um beco sem saída. A avenida, não. Ela sabe que todos precisarão passar por ela, querendo ou não, em algum momento: para uma pausa, um intervalo ou uma vida inteira.

É difícil ser uma pessoa avenida em uma cidade com pessoas ruas por todos os lados. Ou ser uma rua massacrada por gigantescas avenidas, convivendo com gente que se acha avenida, mas não passa de uma rua de quinta.

De repente, de tanto avistar as alturas, pedindo alguma resposta para a atordoante quantidade de luzes da avenida, veio uma estrela isolada no céu, em meio à noite nebulosa. Por hoje, isso basta: enxergar uma estrela confundida (e confusa) em meio às luzes da maior avenida da cidade, enxergando-se singelo na aspereza do cotidiano da Pauliceia.
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