Roteirista e Escritora

À flor da pele

Posted by on Jan 31, 2012 in Crônicas, Slideshow | 0 comentários

À flor da pele

Poucas estações do ano são tão fascinantes como a primavera. Das quatro, talvez nenhuma reúna tantas metáforas sobre a gente. Por essa razão, é dela que a crônica deste dia da semana mais gosta de falar. Talvez por não ser tão amena e sombria como o outono. Ou porque nem só de extremos é feita a vida: cambaleando entre um inverno e um verão. Seja como for, a verdade é que a primavera nos oferece um leque de lições sobre os mais variados temas.

Ensina sobre a paciência aos que esperam o ano inteiro pelo verão. E que depois de inverno turbulento, muitas vezes, pode vir um feixe de esperança. Uma tarde de primavera abre um espaço inevitável na vida, para que a gente se sinta mais inteiro ao ar livre para vivê-lo com delicadeza.

Ensina a sobreviver aos estragos das chuvas, do malfeito, do corrupto, da bandalheira e das aflições sem fim que pesam mais no frio. Abre um clarão que vai do céu à terra para que a gente enxergue melhor os detalhes. Os nossos. Os do outro. Os do planeta inteiro. E dê jeito no que puder dar, porque qualquer jeito vale quando se está no mesmo barco.

Ensina a acreditar, mesmo que essa lição venha com todas as outras estações também. Talvez porque, nesta época do ano, a gente não se sinta tão enclausurado por conta do frio, nem tão aéreo e leve demais por conta do verão. Exatamente por isso e por causa daquelas flores secas que hoje brotam aos montes lá fora; porque, lá atrás, alguém acreditou e deu nisso. Então, o que se imagina agora também há de acontecer: uma ideia, uma saída, uma cura, uma viagem, um amor, um filho ou tudo junto.

Ensina a colorir porque tudo lá fora de repente fica mais bonito; beleza que se irradia nos rostos das crianças e nos parques da cidade. A primavera manda na gente sem que percebamos: pede para abrirmos portas, cortinas, janelas e o coração gelado para mudar de ar, trocar os objetos da casa de lugar, deixando a vida mais arejada.
Pensando bem, talvez seja uma arrogância dizer que a primavera é a estação preferida desta crônica. Já que é o elo bacana entre todas que nos fez chegar até aqui. Mas, depois de um tempo de tantas histórias, talvez seja mesmo tempo de florescer ao lado dessa estação que nos recebe. Deixar-se cortar, simbolicamente, trocando de pele para renascer mais forte e vibrante. Virando mais uma página, levantando mais uma vez e respirando mais fundo, porque é tempo de viver à flor da pele.

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