Roteirista e Escritora

Vida além da tinta

Posted by on Jan 31, 2012 in Crônicas, Slideshow | 0 comentários

Vida além da tinta

Dizem que a vida tem a cor que a gente pinta. Logo cedo, a escola ensina isso e apresenta as ferramentas necessárias: são pincéis, canetas e lições de tonalidades que compõem cada desenho, transformando-o numa aventura abstrata de quem, pouco a pouco, começa a conhecer o mundo.

Primeiro, vêm as cores do arco-íris com seu vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Sim, aprendemos decorando para identificar na vida como elas se comportam. Mais à frente, identificamos as cores através das histórias que nos contam: ou você acha que Chapeuzinho Vermelho é nome de gente?!

O tempo passa e percebemos que nem todo mundo enxerga como a gente: há os que nos enxergam de cima abaixo, os que não acham que vermelho nos cai bem e os que não respeitam as cores do semáforo. Há também aqueles que confundem as cores e o médico os batiza de daltônicos, os que nascem sem enxergar, os que encaram a cegueira ao longo da vida e até os que reclamam que nós não enxergamos nada com nada.

Mais tarde, a vida ensina mais ainda: e vai brecando aquela nossa empolgação infantil diante das cores. Aprendemos, assim, a resmungar frustrações em tons cinzentos ou comemorar uma boa notícia vibrando junto a apenas algumas cores vivas. Seja como for, por algum motivo, perdemos o gosto (ou visão?!) pelas cores e passeamos por todas elas de forma mais comedida e adulta. Afinal, somos apenas velhos conhecidos que se cumprimentam sem necessidade de grandes celebrações.

Ora, que bobagem! No Brasil, a televisão em cores começou com ansiedade, em 1962. Foi tão afoita na arte de incluir mais tons na transmissão que não decolou. O sistema de receptores coloridos era importado e não vingou. De certo, custava caro enxergar com todas as cores. Somente na década seguinte houve a regulamentação do sistema PAL-M e, precisamente em 31 de março de 1972, a transmissão em cores chegou de vez, mostrando a Festa da Uva de Caxias do Sul com todas as suas tonalidades. Faltou sabor, verdade, mas o entusiasmo invadiu o país que passava a ver, na tela, as cores da realidade.

Pensando nisso, dias desses, numa cafeteria da grande cidade, havia uma mãe com seu filho. A criança devia ter seus dois anos e meio de idade. E, enquanto o café não chegava, foi impossível não perceber seu encanto pelas cores do jardim do lugar. E, ao lado dela, uma mãe que acompanhava e vibrava junto como se, por breves segundos, tivesse um pouco daquela idade. A vida é engraçada: a gente aprende para desaprender e aprender novamente com nossas criações. Assim, a infância volta e as cores também nos curam, trazendo de volta aquelas primeiras sensações.

Enxergar mais longe, ousar mais um passo. Nem sempre esses atos nos trazem mais cor, pois bonito é aprender a revisitar o passado ao invés de somente vislumbrar o futuro. E, assim, ver a vida. Vida esta que vai além da tinta, do papel, e vira memória na gente.

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