Roteirista e Escritora

O quilômetro a mais

Posted by on Jan 31, 2012 in Crônicas, Slideshow | 0 comentários

O quilômetro a mais

A jornada da vida é adorável principalmente por ser repleta de pausas. Nesses momentos, percebemos que estamos constantemente nos adaptando, remanejando e redefinindo traçados até o lugar aonde queremos chegar. São mil metros aqui, um centímetro acolá e, a cada espaço percorrido, são as histórias que escolhemos viver que rechearão o caminho. Há muitas coisas que nos distanciam do que gostaríamos de ser. E praticamente todas estão dentro de nós, ainda que, muitas vezes, coloquemos a culpa nos outros. São impasses, medos, limitações, frustrações, boicotes e crenças que vamos construindo desde pequenos, sem perceber.

Há pessoas por perto que escolhem, comumente, o trajeto mais simples da vida. Gente que opta por responder à questão de múltipla escolha em vez da dissertativa; que escolhe o estágio que o parente influente conseguiu em vez de lutar por aquele de difícil ingresso; que namora a moça que gostava de você em vez de investir naquela misteriosa e bacana por quem você se apaixonou; que mora na cidade onde sempre viveu em vez da cidade onde sempre sonhou em viver.

A crônica da semana não pretende insinuar que esse caminho seja inadequado. A reflexão é um percurso tão individual quanto o tema aqui abordado, ainda que se acredite aqui que cada passo que uma pessoa dá é um sim para alguma história que se está prestes a viver. Pensemos, no entanto, naquilo que nos faria ir mais adiante – mudando o script do nosso livro da vida.

Percorre um quilômetro a mais quem ousa desejar mais do que lhe foi oferecido; quem se permite trazer uma polêmica à tona em uma mesa de gente careta; quem se questiona diante do impossível; quem se arrisca no escuro; quem fecha as portas para as previsíveis zonas de conforto.

Essa quilometragem traz ruído e solavancos na alma, verdade seja dita. Quem caminha de forma cartesiana não tem tantas surpresas, mas também menos sofre com a agitação do inesperado. É, todavia, bonito ver que quem se supera vai além, porque dribla as adversidades com gingado de jogador profissional em final de campeonato, fazendo a torcida gritar com euforia um “olé” no estádio cheio.

Caminhar ou correr é o cotidiano. O balé da vida, por sua vez, faz do caminho um precioso acúmulo de milhas com histórias, conquistas e sentimentos bem vividos, confundido em meio a piruetas.

A grande questão é escolher se vale a pena percorrer esse quilômetro a mais. Naquela canção do Chico, talvez, um caminho: “Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!”.

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