Roteirista e Escritora

Aprendendo a pousar

Posted by on Jan 31, 2012 in Crônicas, Slideshow | 2 comentários

Aprendendo a pousar

A sala de embarque de um aeroporto é um cenário interessante para observar a movimentação das pessoas. Ali, sem muito esforço, algumas coisas interessantes podem acontecer. Foi assim que, enquanto o café expresso não ficava pronto, reparei na aglomeração de motivos que levam tantos de um lugar para qualquer outro no mundo.

São milhares, todos os dias, que partem porque o peso do lugar onde estão não é mais suportável; porque tudo parece pequeno; porque tudo é maior do que o que se imaginava; para reencontrar alguém que lhe é querido; por amor – louco ou não; por saúde; por doença; por obrigação trabalhista; ou pela mais simples sede de ir em busca de algo novo que, onde se está, não se acha mais.

São milhões, todas as semanas, que chegam porque é hora de buscar uma mudança tremenda; porque toda viagem tem seu fim; para encontrar uma terra desconhecida; porque conseguiram visto; porque o visto expirou; para um recomeço; para contar uma história; para contar boas novas ou, até mesmo, pela mais humana vontade de chegar para sentir falta de partir novamente.

E já que os técnicos continuam ajustando algo no motor para que a aeronave lá fora consiga decolar, é natural refletir sobre esse amontoado de coisas que tem nos feito partir e chegar tantas vezes a cada capítulo da vida. No entanto, seria de bom tom estabelecermos algumas mudanças daqui para frente: nada de partir sem aviso; nada de chegar sem avisar. E nada de fincar os pés no chão, por puro comodismo, em vez de pegar a estrada de vez.

Quebrando minha linha de raciocínio, alguém avisa, em som estridente e bilíngue que chegou a hora de embarcar. Gestantes, crianças e idosos têm preferência – talvez porque estejam sentindo na pele essa história toda de alguém que está para chegar ou por partir.

No cartão de embarque, um borrão esconde o portão e a cidade para onde se vai. A aeromoça, atordoada com a quantidade de passageiros, não me questiona e abre o caminho como se fosse um portal. Talvez o papel não tenha mais tanta importância quando a partida está definida na mente de quem vai.

E assim, em meio à nostalgia do fim de tarde na cidade, mais um avião decola. Partindo feito um coração aos pedaços, chegando recheado de sentimentos confusos e uma esperança quase infantil.

Durante o voo, pouco antes do comissário de bordo oferecer uma barrinha de cereal com validade vencida, um pensamento invade a mente: a grande aventura da vida pode ser, depois de alguns encontros e desencontros, achar um lugar onde o coração possa pousar com segurança e afeto.

2 Responses to “Aprendendo a pousar”

  1. Denis says:

    Olá Thais, tudo bom?

    O site ficou muito bom, amei os textos! Parabéns, beijos

  2. José Rubens Scharlack says:

    Thaís, acabo de ler este primor, da sala de embarque do Aeroporto de St. Kitts. Nada mais verdadeiro!!

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